O avanço dos aplicativos de entrega nas grandes cidades brasileiras ainda não chegou de forma igual a todos os territórios, especialmente às comunidades. É nesse cenário que surgem plataformas focadas nesse público e que agora começam a mirar expansão para outras regiões do país, incluindo Salvador.
Criado no Rio de Janeiro em 2021, o Delivery das Favelas nasceu com a proposta de atender áreas onde grandes apps não operavam. Hoje, a plataforma já está presente em mais de cem comunidades da Grande Rio e em outras 1.600 em São Paulo, realizando cerca de 500 entregas por dia, principalmente de refeições e medicamentos. Além de consumidores, o aplicativo também conecta pequenos empreendedores locais, com cerca de 30 vendedores ativos no marketplace, concentrados nos setores de alimentação e vestuário.
A operação envolve 40 entregadores, todos moradores de comunidades, e 11 funcionários, sendo 70% também residentes desses territórios. Com mais de 5 mil usuários, a plataforma se prepara para um novo salto. Segundo o fundador e CEO Anderson Marcelo, uma parceria com um grande e-commerce de eletrônicos deve multiplicar o volume de entregas em até dez vezes. No plano de expansão, o Nordeste aparece como prioridade, com Salvador como porta de entrada. “Nosso maior desafio hoje é convencer as grandes companhias a fechar parceria. O processo de negociar e integrar tecnologias ainda é burocrático e leva, pelo menos, de seis meses a um ano para ser concluído”, afirma, em entrevista ao Valor Econômico.
O movimento acompanha iniciativas já consolidadas no setor. Criada em 2020, a Favela Brasil Xpress atua hoje em São Paulo, Minas Gerais e Distrito Federal, atendendo cerca de 300 comunidades e realizando, em média, 4 mil entregas por dia. “O modelo é bom para todo mundo: para o e-commerce, que vende mais; para as pessoas que vivem nas comunidades, que recebem suas compras em casa; e para quem quer trabalhar, que tem oportunidade de obter renda”, destaca o fundador Giva Pereira.
Outra empresa nesse segmento é a naPorta, que opera no Rio de Janeiro e em Brasília, com parte relevante das entregas destinadas a favelas. A logtech conecta grandes plataformas de e-commerce a consumidores desses territórios por meio de agências locais e entregadores moradores das comunidades, somando cerca de 18 mil entregas diárias. “Existe um potencial de compra absurdo nas comunidades, e ainda há muita oportunidade para fazer logística de e-commerce com foco nesses locais. O desafio é o custo”, explica o cofundador e COO Leonardo Medeiros.
Iniciativas de delivery voltadas para as periferias de Salvador já surgiram nos últimos anos, como o TrazFavela, aplicativo criado pelo jovem Iago Silva dos Santos, morador de São Caetano. A proposta era conectar cerca de 26 comunidades a um serviço de entregas feito por profissionais que conhecem os próprios territórios, reduzindo barreiras enfrentadas por grandes plataformas e incentivando o comércio local. O projeto chegou a reunir dezenas de entregadores e estabelecimentos, com foco em inclusão, geração de renda e valorização dos negócios das favelas, oferecendo desde refeições até outros serviços sob demanda.
Hoje, porém, a iniciativa dá sinais de descontinuidade. As redes sociais do TrazFavela não são atualizadas desde o fim de agosto do ano passado, o link para pedidos está desativado e, nos comentários, usuários relatam dificuldade para obter respostas. O Alô Alô Bahia tentou contato com os responsáveis, mas não conseguiu retorno.
Na prática, Salvador ainda não tem um ecossistema tão robusto quanto o do Sudeste e, justamente por isso, entra no radar de expansão de plataformas maiores, como o Delivery das Favelas.

