Uma realidade escrita em 1938 pelo romancista Graciliano Ramos, mas que continua reverberando no Brasil contemporâneo. A seca que ultrapassa o fenômeno climático e também se manifesta como aridez social, humana e afetiva. É a partir dessa provocação que a Cia Buffa de Teatro constrói “Idas e Vindas Secas”, espetáculo inédito selecionado por meio do edital da 21ª edição do TCA. Núcleo de Teatro, realizado pelo Teatro Castro Alves e Fundação Cultural do Estado da Bahia.
Com direção e dramaturgia de Joice Aglae, a montagem está em fase final de ensaios e se prepara para estrear em outubro, no palco da Sala do Coro do Teatro Castro Alves. Desde agosto, o grupo fez uma imersão no Complexo do TCA para realizar os ensaios e a construção dos elementos cênicos, aprofundando a proposta da diretora Joice, que busca não fazer uma adaptação literal do livro de Graciliano Ramos.
A obra literária funciona como ponto de partida para uma investigação cênica que transforma sua atmosfera, seus silêncios e seus personagens simbólicos em uma dramaturgia essencialmente física e imagética. A proposta é aproximar a aspereza do sertão às linguagens da palhaçaria clássica, do cinema mudo, do circo e do teatro de animação.
“Montar um espetáculo inspirado em Vidas Secas é revisitar o Brasil nordestino mais profundo, mas também o mundo contemporâneo. A seca como fenômeno natural se perpetua por muitos sertões e o desafio climático do atual aquecimento global nos aponta para um retorno a esta crise mundial da água. Mas, também, nos tempos atuais, a aridez pode ser do solo, do corpo físico, do corpo social e de nossa
capacidade emocional de empatia”, refletiu a diretora Joice Aglae. Desigualdade, fome, exclusão, perda de território, exploração do trabalho, silenciamento e dificuldade de se fazer ouvir atravessam a pesquisa do espetáculo.
A figura dos retirantes ganha, assim, uma dimensão contemporânea em que pessoas continuam em movimento em busca de terra, direitos, afeto e condições de existência. A palhaçaria é utilizada justamente para tensionar essas questões, quando o riso não aparece como uma forma de negar a tragédia, mas como possibilidade de enfrentá-la. “O palhaço e a palhaça não se abalam pela derrota, ao
contrário, a derrota o/a impulsiona para uma nova tentativa e possibilidade”, completa Joice.
A construção de “Idas e Vindas Secas” começou em julho com a realização de oficinas formativas e audições de atrizes e atores para a composição do elenco. Foram realizadas oficinas gratuitas de figurino, cenário, iluminação, produção e direção dentro dos espaços do Complexo do Teatro Castro Alves.
Ao final do período, ao menos um assistente de cada área foi selecionado para integrar a equipe do projeto. A produtora executiva do espetáculo, Juliana Monique, reforçou a importância dessa residência no TCA para aproximar artistas, técnicos e diferentes áreas da engenharia do espetáculo, que ajuda a “transformar ideias numa experiência única de aprendizado, possibilidade e reverberações”.
“Acessar o Complexo TCA torna a experiência completa, ao receber todo suporte humano e estrutural necessário para criar, cocriar e desenvolver cada etapa do processo de uma montagem com pessoas engajadas em colocar na cena um bem cultural, que percorre todos os campos criativos e técnicos. Em breve, o que estará nos palcos não é somente o espetáculo Idas e Vindas Secas, mas a potência de um
coletivo que se fortaleceu para colocar sua verdade na cena e partilhá-la com o público de Salvador e do interior da Bahia”, celebrou a produtora.
A etapa de ensaios da montagem se estende até o fim de setembro, preparando a obra para a estreia no início de outubro na Sala do Coro do Teatro Castro Alves. Depois da temporada em Salvador, o espetáculo seguirá para apresentações em dois Territórios de Identidade da Bahia, ampliando o alcance da montagem e dando continuidade à proposta de circulação prevista pelo TCA-Núcleo de Teatro.
O espetáculo “Idas e Vindas Secas” foi contemplado nos Editais da Política Nacional
Aldir Blanc de Fomento à Cultura na Bahia, realizados com recursos do Governo Federal repassados pelo Ministério da Cultura, e executados pelo Governo do Estado da Bahia, por meio da Secretaria de Cultura do Estado.
SOBRE
Sobre a Cia Buffa de Teatro – Coletivo baiano dedicado à pesquisa da máscara e suas linguagens, além de dialogar com outros campos de interesse, como iluminação, musicalidades e visualidades da cena. A Cia Buffa de Teatro desenvolve espetáculos e ações formativas que articulam comicidade, poesia e reflexão social.
Ao longo de sua trajetória, o grupo tem investigado o diálogo entre diferentes linguagens cênicas, como o circo, o teatro de animação e o cinema mudo, a bufonaria, a commedia dell’arte, a cultura popular e tradicional, construindo uma estética própria marcada pela valorização do corpo, do jogo e da potência imagética da cena.
Sobre Joice Aglae – Diretora teatral, dramaturga, atriz, pesquisadora e professora, Joice Aglae tem suas pesquisas voltadas à Máscara e seus campos de diálogo na cena e nas tradições e do teatro físico. Desenvolveu uma metodologia própria de criação cênica que integra análise dramatúrgica, preparação de elenco e processos de encenação. Fundou a Cia Buffa de Teatro (BR, 1998) e Bottega Buffa
CircoVacanti (IT, 2010-2014).
Sobre o TCA.Núcleo de Teatro – Criado em 1995 e retomado em sua 21ª edição, o TCA.Núcleo de Teatro é um programa de residência artística do Teatro Castro Alves que oferece aos grupos selecionados estrutura técnica, espaços e acompanhamento especializado para o desenvolvimento de uma obra inédita. Além da montagem dos espetáculos, promove oficinas, ações formativas e atividades de mediação cultural, fortalecendo a produção teatral baiana e os processos de criação artística.

